Ponto de vista Espirita : É a lei de causa e efeito.

A justiça nunca deixa de vir, cedo ou tarde, segundo as nossas noções de tempo. A reencarnação está na vida social, não tenhamos dúvida. Conseqüentemente, não se exclui em tudo e por tudo a reencarnação como um dos dados de avaliação nos desajustes sociais, ainda que não seja razoável generalizar, o que daria motivo a conclusões muito rígidas.

Se, de fato, há circunstâncias que se sobrepõem aos nossos desejos e meios de ação, porque decorrem de uma carga de responsabilidade individual ou coletiva de outras etapas da vida, há obstáculos e eventualidades que denunciam apenas a falta de vigilância ou a displicência nesta existência. E se o homem fosse conduzido pelo passado em todos os instantes não haveria mudança nem disposição do livre-arbítrio.

A vida seria uma sucessão fatal de episódios predeterminados. Como corpo de idéias, baseado em factos que comprovam a sobrevivência do espírito além do corpo e a sua comunicação com o nosso mundo, o Espiritismo também se interessa pelo ser humano na vida de conjunto, o que quer dizer : o homem na sociedade.

Sem a vida social ninguém teria como se desenvolver e renovar-se, pois a penitência reclusa, distante dos problemas, ignorando o sofrimento de seu próximo, sem dar sequer um pouco de si, não faz nenhum santo.

É na forja social realmente que adquirimos experiência e exercitamos as nossas possibilidades latentes, ora caindo, ora levantando, até que nos modifiquemos para melhor. Não sendo, portanto, fatalista, como já dissemos e fazemos questão de repetir, está bem claro que a Doutrina Espírita se preocupa com as desigualdades humanas, cujas causas devem ser atacadas para que se corrijam as injustiças.

Muitas chagas sociais já teriam sido extirpadas se houvesse mais sentimento de humanidade, mais respeito às razões éticas, tanto no plano do poder público quanto no plano particular. Há desigualdades que são o flagrante resultado do egoísmo, da ambição e, por fim, das incongruências de uma sociedade discriminativa na distribuição dos bens indispensáveis à vida humana.

Uma sociedade em que a vivência real do Cristianismo ainda está reduzida a compartimentos limitados, porque o Cristo é apenas objeto de devoções formais, sem ação nas profundezas do coração, a não ser das pessoas abnegadas, cujo espírito de sacrifício vem contrabalançar o peso da indiferença ou da frieza dominante.

Pois bem, é contra esse tipo de sociedade, ainda vigente, que invocamos os princípios espíritas, sem compromisso com ideologias e facções políticas. Não estamos defendendo a igualdade maciça ou mecânica, pois seria uma pretensão visionária. Como igualar os elementos de um aglomerado humano composto de criaturas desiguais ?

Sim, desiguais espiritualmente, desiguais no temperamento, na formação moral, tanto quanto desiguais intelectualmente, étnicamente, psiquicamente. Neste ponto, exactamente, a noção de igualdade, tão mal situada nas discussões doutrinárias ou políticas, tem dois sentidos muito naturais : somos iguais pela natureza e pela origem, porque somos criaturas de Deus e pertencemos à espécie humana, mas não somos iguais nas aptidões, no carácter, na educação, na cultura, nas decisões do livre-arbítrio.

Teoricamente, « todos são iguais perante a lei ». Seria, de facto, o ideal de uma sociedade bem equilibrada. Como seres humanos, todos têm o direito a uma vida normal, uma vez que todos têm aspirações, compromissos e deveres compatíveis com as necessidades biológicas e espirituais. Necessidades inerentes à natureza humana e, por isso mesmo, não se condicionam, pelas categorias sociais.

No entanto, há muitos casos em que animais de estimação, como cavalos, cachorros e gatos são mais bem tratados do que as próprias crianças que ficam em volta desses animais. Que os animais sejam bem cuidados e defendidos, mas que não se despreze o ser humano. A proteção do reino animal é uma prova de adiantamento de uma civilização.

 


Bibliografia

 

Autor : Deolindo Amorim
Texto publicado originalmente no livro « O Espiritismo e os Problemas Humanos ».
Edição USE, 1985. Primeira edição em 1948.
Fonte: http://www.espirito.org.br/portal/artigos